Catecismo, Disponível em Cosmogenealogia IV, tópico 40

Catecismo                                                                                                                     

                                               São Paulo, 28 de Novembro de 2025

A aula de catecismo já havia começado. João Marcos em seu lugar cativo, ao lado de ampla janela, que lhe dava vista para um lado do grande colégio católico, naquela ala de imensos ciprestes e outros arvoredos dispostos ao largo do muro alto. Num dos cantos o parquinho de diversão com seus brinquedos estáticos e aquela areia branca fininha.

A professora já leu um trecho da bíblia e já partia para as explanações.

- Porque quando Jesus disse que se houvessem duas ou mais pessoas reunidas em Seu nome, Ele ali estaria...

Nessa hora o pensamento de JM desandou, foi para as alturas. Pensava agora com ele mesmo: Sim, Ele disse que se houvessem duas ou mais pessoas, Ele ali estaria... Mas não disse que se você estiver sozinho, você pode pensar em Jesus e você o alcançará. Ah se eles soubessem...

Professora terminou sua explanação e observou bem, JM distraído olhando para fora da janela. Da onde ela estava, pelo ângulo, não lhe divisava para o quê ele tanto olhava.

- O quê você entendeu do texto JM? Perguntou ela sorrateira, querendo lhe pregar uma troça, sabendo da sua distração.

JM fora apanhado de surpresa sim, mas esperou por um instante antes de responder.

-A vida é bela, professora. Respondeu assim sem mesmo saber do que se tratava.

A professora riu-se satisfeita. - Muito bem JM, boa resposta. Claro, no fundo, não queria constranger JM, era um menino muito bom, gostava muito dele.

- Muito boa sua resposta JM. Se considerarmos que tudo vem de Deus, então podemos concluir que Deus muito nos ama e de tudo nos guarnece, nos dá fé e esperança, e até o pão de cada dia em nossa mesa... Muito bem. Saiu-se assim também por alto... No recreio falaria com ele, sabia onde ele gostava de ficar...

No intervalo, aproximou-se de JM para uma conversa. Neste momento uma colega que estava com ele se afastou agradecendo alguma coisa que ganhara dele, mas não viu o quê.

- Para onde você tanto olhava JM, que nem na aula prestou atenção, de novo?

- Eu olhava um passarinho, professora. Era um beija-flor, vi quando se aproximou do pergulado de primavera. O sol batia em suas asinhas que reluziam em muitas cores, era lindo ele. E aí ele foi beijando várias flores. Aí eu me lembrei da aula de biologia, da polinização das plantas que a professora explicou. Então, professora, eu pensei, como tudo é mesmo perfeito e tudo se encaixa na criação de Deus. A plantinha produz o melzinho lá dentro da copinha dela. Ela sabe que o beija-flor virá. Não sabe ao certo quando virá, mas tem sua fé e acredita sempre. Por fim o beija-flor aparece. Porque ele também precisa comer, o coitadinho, devia estar com a barriguinha vazia. O beija-flor também, por sua vez, não sabe se vai ter melzinho lá na copinha daquela flor, talvez um outro passarinho passou lá antes e bebeu tudo. Mas ele insiste, tem fé, acredita que têm e vai lá ver, porque se não tivesse fé nem iria lá, não é mesmo? Ele investiga todas, uma por uma, se vai embora rápido é porque está vazio, se demora um pouco mais é porque achou, aí ele se esbalda, a gente até vê a gargantinha dele fazendo glub-glub, é muito engraçadinho... Riu-se inocente.

A professora disfarçou em ajeitar o óculos, mas limpou uma lágrima que teimava em escapar rosto abaixo.

- O que é que você deu pra Verinha? Perguntou a professora.

- Um chocolate. Tem mais um aqui, quer um? Enquanto a senhora explicava eu observei ela de cabeça baixa, ela ainda está triste.

- Sim, JM, não é fácil perder um ente querido. Disse a professora.

- Eu disse pra ela isso, que não ficasse triste, que Deus não fez por mal, Ele é bom e só faz o Bem... Ele pode ter tirado o pai dela de junto dela, mas o levou para ficar mais perto Dele. Agora ela tem dois papais no céu. O pai dela mesmo e o papai do Céu, que é nosso Pai Eterno, Pai de Todos nós.

- Sim JM, fez bem de ter dito isso a ela. Você é um bom menino. Eu preciso ir ali antes de terminar o recreio. Tchau. Disse a professora e saiu.

Nessa hora JM sentiu uma presença.

- Senhor, és tu? Disse JM.

-Sim JM, cá estou.

-Oi, percebi pela túnica...

-Estive aqui e observei o que você disse para sua amiguinha. Fez muito bem JM. Confortou o coraçãozinho amargurado dela. E ela ficou muito feliz com o chocolate, é o preferido dela.

-Sim, esse é gostoso, e eu gosto muito dela também, fiquei chateado vendo ela daquela jeito.

-Também te trouxe um presentinho. Veja o que trouxe para você JM. Consegue saber o que é? Disse e estendeu as suas imensas mãos fechadas, com algo dentro. As abriu devagar e de dentro saiu um beija-flor, batendo suas asinhas e voando ligeiro.

-Ah, não brinca... Era o Senhor?

-Sim JM, era eu. Estarei convosco, até o fim dos tempos... Amanhã venho de novo te visitar JM. Como será que eu virei? Disse sorrindo.

Tocou o sinal do fim do recreio. JM abaixou-se para pegar o estojo.

-E eu... – JM olhou em volta e já não tinha mais ninguém – ... Eu estarei contigo todo o tempo, toda a minha vida Senhor. Disse ao vento, e uma brisa suave balouçava os ciprestes.

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