O Pastor Maluco - Disponível em Cosmogenealogia II, tópico 29

 

O Pastor Maluco

 

                Vagueava a esmo quando vi um letreiro luminoso ‘Cristo Salva’ na calçada, entrei sem pensar. O pedido de divorcio da esposa martelava a cabeça. E a guarda das meninas?

Era um recinto grande. Me acomodei onde achei assento. Um senhor moreno, cara bolachuda, testa alta, me cumprimentou, ‘Aleluia, Irmão!’. ‘Aleluia’, respondi e sentei. Mas levantei rápido, todos estavam de pé. O pastor adentrara ao palco.

O pastor pega o microfone e vocifera sem parar. Com aquela mão de raquete manuseia a Bíblia com agilidade de esgrima. “Aleluia Irmãos, hoje vamos aprender a lição do Amor e do Perdão. Vão ser dois coelhos numa cacetada só.” Estranho... foi o que falou... Disse e pegou um cacetete enorme atrás da porta. Não, era um taco de beisebol. Nessa hora tive dó dos coelhos.

“Irmãos, dentre a lições que deve o homem aprender uma vez peregrinando por este mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo, a mais louvável talvez seja sem duvida a do Amor. Como bem ensinou Nosso Mestre: ‘Amai-vos uns aos outros, com eu vos amei’. Essa a primeira e primordial lição. E a segunda, não menos importante é o Perdão. Porque se você não perdoa, como pode amar? Como pode perdoar sem Amor? Veja que uma coisa está entrelaçada na outra feito unha e carne... E hoje vocês vão aprender isso de uma vez por todas, em nome de Jesus, Aleluia!” Finalizou, ao que a platéia respondeu em coro ‘Aleluia!’.

Dito isso afastou o microfone do púlpito e passou a golpeá-lo insandecidamente. Foi despedaçando o pobre cada vez mais até arriá-lo ao chão. Trouxe o microfone e resfolegante anunciou: ‘Disse e afirmo, não posso mentir, se Deus assim quis, não posso negar, Aleluia!’

Nessa hora eu assustado olhei em volta. O povo dizia Aleluia com as mãos levantadas, outros batiam palmas, alguns diziam, ‘Louvado seja, em nome do Senhor’. O Senhor moreno me olhou risonho a minha cara de assustado. ‘Tudo bem?’ Perguntei. ‘Sim, respondeu. Quando ele aparece com esse púlpito de madeirite a gente já sabe... ‘Hein, não entendi...’ Disse eu.

‘Veja lá no canto o púlpito de acrílico... Esse de madeirite é feito pra apanhar mesmo...’ Disse e ria... Eu me aliviei.

Do palco o Pastor continuou, com o taco no ombro. ‘Na saída eu vou pra porta, vou perguntar, quem não souber vou assentar esse taco na cabeça, vocês sabem...’ “Aleluia.” Disse eu sorrindo para o o Sr. moreno. Ele retribuiu o sorriso abaixando a cabeça e mostrando o que achei ser um galo inchado meio avermelhado... ‘Não?!’ Falei. Ele sorrindo balançou a cabeça afirmativamente. Eu olhei para os lados, tinha banheiros na lateral. Ok, entro lá e me tranco. Não, vou me embora agora... Na pressa pisei no pé do Sr. moreno. Cheguei no corredor na hora que o Pastor anunciou: ‘Irmão porteiro, feche a porta, tranque-a, por favor. Aleluia!’ Voltei pro assento, passei pelo Sr. moreno, ‘Aleluia, fui conferir se iam fechar a porta mesmo...’ Disse batendo palma em pé. Parei quando vi todos sentados em silencio.

“Irmãos.” Retomou o Pastor. “Existe alguma literatura, algum manual de como Amar ou Perdoar alguém? Existe algum roteiro milagroso de como fazer pra Perdoar ou Amar alguém?

Amar ao próximo como a si mesmo, disse o Mestre Jesus. Mas sabemos nos Amar antes de mais nada? É certo que temos uma noção do que seja Amar, como sendo respeito, consideração, deferência, aí vamos juntando uma porção de palavras que embora tenham um sentido não possuem mais correspondência conosco, a não ser da boca pra fora... Falar é fácil, mas fazer, mais do que representar um trejeito, um real sentido no intimo de nosso coração, aí já fica mais difícil, eu sei... Vida de Santo não é fácil. Mas afinal qual foi o caminho que esse Homem Santo percorreu que não achamos sequer o atalho?’ Fez uma pausa, rolando o taco com a mão.

‘E o que falar do Perdão? É um gesto da língua, dito assim com voz macia, calibrada na falsidade? Ou será uma energia adocicada que se desprende de nosso coração em direção à pessoa que nos dirigimos? O que será que deve ser esse negócio de perdão? Não bastasse ter que Amar nosso inimigo, oferecendo a outra face? Que mistério será esse louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo?’ Nessa hora gritava e era perdigoto pra todo lado, e voltou a golpear o que restou do finado púlpito.

‘Aleluia. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo’. Dizia a plateia em coro.

‘Pois agora, prestem atenção.’ Dizia o Pastor retomando o microfone enquanto buscava fôlego. ‘Prestem atenção na palavra de Deus que insufla a palavra do seu Pastor em beneficio de seu rebanho, louvado sejam os Homens, os mansos e pacíficos, porque esses verão a Deus, sublime Pastor, que a seu rebanho se dirige com misericórdia e devoção de Pai Amantíssimo. Aleluia, irmãos.” ‘Aleluia.... ‘  Dizia o coro. Sr. moreno sorria. Eu tentei retribuir, não sei se consegui...Retorci o pescoço. Porta trancada, leão de braço cruzado na frente...

‘Veja.’ Retomou o Pastor. ‘Em tudo na vida tem a sua contrapartida. O Universo tem em sua natureza a dualidade. Assim é para a Luz e a Sombra, o Claro e o Escuro, o Bem e o Mal. Qual a contrapartida do Perdão, senão a Ofensa. Se não sabemos onde está o Perdão, sabemos onde está a Ofensa, ataque-mo-la portanto. Persegui-mo-la em nosso intimo numa caçada implacável até que a encontremos em um recôndito escuro de nosso próprio ser. Uma vez descoberta, constange-mo-la a ponto de aniquilá-la até que não sobre sequer resquício. E sejamos assim, atentos, quais soldados em vigília no quartel, sem desanimo e cochilo pelos cantos, para que não aconteça de o Sargento em seu turno não o venha surpreender em erro. Sê eterno vigilante de suas próprias emoções, assenhore-se delas e não as delegue para ninguém, muito menos quem por elas não tem o menor zelo, pelo contrario ainda a maltrate, por pura maldade, pois que hão pessoas pérfidas que comprazem na maldade porque jazem na escuridão de seus corações endurecidos... Não, não, Irmãos! Atentem para o que diz a escritura sagrada: ‘Sede mansos como pombos, mas prudentes como as serpentes’. Nessa hora bateu com o taco no chão, como se matasse uma cobra virtual. ‘Aleluia.’ Puxei o coro.

‘Se guardai seu coração incólume de qualquer ofensa e oferece seu coração como tabernáculo eterno ao Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, manso e humilde, justo e amado, do que hão de resguardar em contrapartida ao Perdão? E que razão de ser terá o Perdão se não há a Ofensa? Percebem agora como Perdoar? Em não deixar que a Ofensa vos alcance em seu sagrado coração? Que assim seja Irmão! Aleluia.’

‘E o que podemos falar do Amor, Irmãos? Como encontrar o Amor? Onde o Templo Sagrado do Amor de Nosso Mestre Jesus Cristo? Onde essa torrente de Amor capaz de curar o enfermo com o olhar, o aleijado com um toque? Vejam, atentem para a contrapartida do Amor, qual seja, senão o Ódio, esse vilão criminoso capaz de assolar nações inteiras, que dirá daquele fiel desatento. Veja essa perfídia assomando-lhe as vísceras percorrendo-lhes as veias, injetando terrível substancia química que num crescendo lhe tomam de assalto o coração na tentativa ignóbil de torná-lo pedra, insensível, inflamável e repugnante, que sem freio continua em frente assomando-lhe a razão, turvando-lhe o entendimento, introjetando-lhe na mente toda sorte de mazelas impingindo toda sorte de crimes que depois de executados não lhe sobra nada senão o arrependimento, tarde demais para a remediação.’ Fez uma pausa, suspense no ar. Aproximando do monturo, deu-lhe uma porretada. Quem estava cochilando, acordou.

‘Eis que o mal deve ser arrancado pela raiz, pois, diz a sagrada escritura que “toda árvore que não produz bons frutos serão cortadas e lançadas ao fogo, pois eis que são pelos frutos que se conhece a árvore” Aleluia Irmãos.’ Aleluia!

‘ Vamos voltar ao banco da escola, vamos recordar uma aula de química(*).’ Continuou. ‘Pra você formar uma molécula você junta átomos, mas tem um numero máximo de átomos que você pode colocar ali naquela molécula. Conforme o numero de átomos de hidrogênio, você tem, por exemplo, o hipoclorito, o clorito, o cloreto, o clorato, o perclorato. Para um átomo de cloro o sufixo e o prefixo do nome da molécula vai determinar a quantidade de átomos de hidrogênio. O prefixo Per significa o grau máximo que você pode atingir. Então assim temos o perclorato, o permanganato, o peróxido... Assim na gramática, você tem o feito e o perfeito, feito ao máximo, o perseguir, seguir ao máximo. Veja que assim temos nós, os cristãos, o dever de perseguir ao máximo o ideal de Jesus, para um dia buscar-lhe a sua perfeição, e por que não, porque em Jesus somos todos irmãos, filhos de Deus. Aleluia!’ ‘Aleluia’, responde a plateia em uníssono.

‘Então veja.’ Continuou. ‘O Amor é o oposto do egoísmo. No egoísmo você recebe. No Amor você doa. Então Perdoar é doar em grau máximo, sem reservas e sem parcimônia. Vamos lembrar aqui as letras de João quando diz na passagem do seu Apocalipse: “Ai daquele que são frívolos, nem é frio e nem é quente; antes fora quente ou frio; mas como é morno vomitar-te-ei de minha boca.” Nessa hora, bradou o cajado, isto é, o porrete e marretou no que restava do restolho do finado púlpito. ‘Aleluia, Aleluia!’ Gritava o coro da plateia. Eu batia palmas um tanto assustado. Nessas horas minha bebedeira já estava melhor.

‘Vê irmão.’ Continuou o Pastor. ‘Cuida. Perceba o vilão do Ódio, fosso intransponível para acessar o Amor. Sê atento, vigia-lhe os movimentos como quem vigia o lobo à distancia, cercando o rebanho, a espreita da ovelha distraída. Esvazie as pedras dos bolsos, não encontre motivo para atacar quem quer que seja, seja por qual motivo for. Retire esse peso de sua consciência. Torne-se livre, sinta-se leve. Essa será a sensação do Amor. Esse mesmo que você tanto procurou, por tanto tempo e tantos caminhos e becos sem saída. Porque larga é a porta da perdição, mas essa, Irmão, é a tal porta estreita da qual fala Nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo. Louvado seja. Aleluia!’

‘Aleluia! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.’ Gritava a plateia em coro, comigo junto. Nessa hora abracei o meu amigo Sr. moreno. Parece que vi uma lágrima debaixo do óculos dele.

Neste momento o Pastor, joelho esquerdo genuflexo, cabeça baixa, destra na testa, repostou o taco no chão e fez uma oração sentida, a qual a plateia acompanhava em silencio, entrecortado com um Aleluia ali ou acolá.

Finda a prece, pegou o taco e pulou do palco rumo à porta, passou por mim com um olho de lince, outro de águia, ou os dois, sei lá... ‘Aleluia, irmão!’ Emendei pra quebrar o gelo, foi o que saiu na hora. Aproveitei a confusão da saída e me mandei pro banheiro. Tranquei a porta do mictório e fiquei quieto. Saí depois de uma hora por ai. Tudo escuro no salão. Fui à porta, trancada. E agora? Escutei um barulho atrás, virei-me, era o Pastor. Que susto! E estava com o taco na mão... Aproximou-se sorrindo e me cumprimentou. ‘A Paz de Jesus, irmão!’ Disse simpático. ‘Chegue mais pra cá, por favor.’ Me aproximei e ele num pulo e um só golpe, estilhaçou a porta de vidro com o taco. Foi caco de vidro estilhaçado pra todo lado. ‘Está aberto, pode ir’. Disse ele. Eu estava em choque, achei que aquilo tudo tinha sido uma representação, um teatro e tal... Que nada, o cara era louco mesmo, concluí assombrado.

‘Ah sim. Tome isso.’ E me deu o taco enquanto saia. Está lá em casa até hoje. Nunca o usei pra nada... E como esquecê-lo. Toda vez que tenho um problema olho pra ele. E na minha lembrança me vem à mente a cena do vidro estilhaçado pelo taco num só golpe do Pastor Maluco. Nunca mais fiquei acrisolado em qualquer problema que fosse, esse taco quebrava qualquer medo ou incerteza que me assolava. Bastava que o olhasse. Assim nunca mais fiquei preso a qualquer situação constrangedora, pelo contrário, me libertava e essa sensação era e continua sendo maravilhosa. Esse taco é poderoso e o guardo com muito carinho e desvelo, junto com minha querida e amada esposa e filhas, nunca fomos tão felizes. Graças a Deus. Em nome de Jesus Cristo Nosso Senhor. Aleluia!

(*) Vi no Instagram, monicamhoroficial 

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