Mestre Sufi - Disponível em Cosmogenealogia II, tópico 17

 

Mestre Sufi

 

Homenagem à Arismaris Baraldi Dias, o ‘pai dos Ufólogos’, in memorian.

 

MESTRE SUFI  teve naquela noite em particular um experiência transcendental bastante significativa, dentre os tantos sonhos que tivera, dos quais abstraia ensinamentos valiosos com os quais ensinava seus discípulos. Em seu estado meditativo desdobrava-se em espírito e aproximou-se de majestoso e resplandecente templo onde predominava a cor rosa.

Suas paredes de mármore maravilhosamente esculpidas detalhavam uma riqueza artística impressionante, adornadas de pedras preciosas, jaspes, rubis e esmeraldas exaltavam ainda mais as cores num rosa vivo e pulsante. Diante do portal imenso de mogno e ouro do mais puro quilate, ricamente adornado, davam imponência e beleza. Sua maçaneta ao alto era inacessível. Observou incrédulo tamanha beleza e pôs-se a vadear a fim de encontrar uma possível entrada enquanto sentia os eflúvios benfazejos e aromas perfumados partindo do seu interior.

Lá nos fundos encontrou uma porta obstruída por lixo, coisas velhas, entulhos e toda sorte de sujeira. Não entendeu tanta sujeira, mas decidiu que por ali promoveria seu acesso ao glorioso templo. Depois de algumas horas de serviço árduo conseguiu remover os entulhos que bloqueavam a porta. Abriu a porta e adentrou satisfeito. Alcançou uma sala vazia incrivelmente bela e arranjada com flores  e incenso. Ouviu vozes, risos que proviam de um enorme salão a frente onde pessoas festejavam e comemoravam algo. Calaram-se as vozes. Então aguardou resoluto e apreensivo. Ouviu passos que vinham em sua direção.

 Adentrou então neste ambiente um ser de luz refulgente e amorosa que o arrebatou e trouxe incrível sensação jamais experimentada. Reconheceu estarrecido este Ser:

-          Mestra Rowena! A Guardiã do terceiro-raio, o raio rosa... – balbuciou incrédulo.

-          Sim meu filho, em pessoa ... – brincou – Como adentraste neste local ?

-          Por esta porta. Precisei remover alguns entulhos... – Disse observando varias pessoas que adentravam o recinto atraídos pela novidade.

-          Sim – Observou. – E porque não entraste pela porta da frente ?

-          Como estava fechada, tentei outra alternativa... – Disse o MESTRE SUFI.

-          Ora, vejam só... - Com um gesto solicitou fosse fechado a porta. Pegou-o pela mão e dirigiu-se ao salão atravessando-o em direção ao enorme portão.

 

Neste espaço, uma eternidade, Nosso MESTRE SUFI  observava maravilhado as pessoas que o sorriam exalando amizade, alegria. Todas belas e joviais exibiam-se em roupas esvoaçantes e quase que translúcidas, sempre na tonalidade rósea.

 

-          Ó Guardião do Portal! – Exclamou a Mestra Rowena.

-          Sim, Mestra e Veneranda. – respondeu o guardião.

-          Acaso trancaste o Portal impedindo o acesso deste nobre e querido companheiro? – indagou ela, sempre sorrindo e com expressão maravilhosa.

-          Não, Mestra e Veneranda. Nosso Portal permanece aberto desde o princípio dos tempos. Minha função aqui é tão somente impedir o acesso daqueles que não possuem a qualificação necessária. Percebi há algumas horas a presença deste nobre companheiro diante o Portal. Admirou mas não atreveu-se a tocá-lo e, como tantos outros, foi embora... – respondeu o guardião.

 

Mestra Rowena olhava MESTRE SUFI com imensa ternura porque já sabia disto mas apenas justificava ao nosso companheiro.

                Perdido em meio a estes eflúvios de paz e harmonia MESTRE SUFI despertou ainda entorpecido de tão extraordinária experiência. Pôs-se a pensar sobre o episódio tentando prospectar dali o ensinamento necessário para, por sua vez, transmiti-lo a seus discípulos.

Ao fim do terceiro dia chateado por não ter conseguido achar a resposta, deixou de lado este assunto. Foi para o encontro com seus discípulos vazio, livre da preocupação de antes. Ao abrir a boca ainda não pensara sobre o que falar. Então como um passe de mágica descortinou-se em sua mente a simbologia do significado do sonho. Tão simples e tão verdadeiro e profundo. Então falou com voz embargada:

'Meus queridos filhos. Removam de vossos corações toda mácula, todo o rancor e ódio que ainda reste em vosso ser para que o portal de vossas almas estejam desimpedidos e abertos para acolher todo o Amor que preenche o Universo. Retire toda a mácula que mina toda a disposição para o belo, o gracioso e construtivo. Retire todo o rancor que anula todas as possibilidades de esperança. Retire todo o ódio que estagna o processo evolutivo que só encontra progresso na senda do Amor.

Um homem sábio é aquele que tem consciência de sua condição de viajante, eterno peregrino, em busca de sua autoiluminação. Como tal prepara sua bagagem com o que lhe for extremamente útil, arrojando para longe de si aquilo que lhe impediria, ou prejudicaria sua jornada. A jornada da evolução humana consiste em entregar vossos corações vivos e limpos àquele que o criou. E todo o viajante recebe a seu tempo a provisão necessária para cumprir sua jornada.

Uma jornada é composta de várias etapas. E se tratando da etapa terrestre temos todos estes empecilhos entulhados em nossa bagagem. Cabe ao viajante precavido vasculhar sua bagagem com todo o critério e atenção possível como quem vai para o banho depois de um dia de intenso trabalho numa mina de carvão e pretende estar limpo e perfumado para sua noiva ao cair da tarde. Existem vários caminhos que o viajante pode percorrer em sua peregrinação ao alcance de seu objetivo. Aqueles que têm sua bagagem leve, trafegam serelepes, rápidos e fagueiros. Aqueles que têm sua bagagem pesada, arrastam-se e demoram-se no caminho. Aqueles que têm consciência exata de sua condição de viajante traçam a melhor rota, a mais curta entre dois pontos, a reta. Aqueles desavisados e ignotos caminham em círculo, perdem-se no caminho.

O viajante precavido que retirou a mácula de seu coração age com sapiência estendendo os olhos ao infinito, alarga teu horizonte de compreensão e nada de bom escapa-lhe aos olhos atentos. Pois o golpe do destino nunca o encontrará distraído e o que poderia ser uma tragédia se torna uma força extra que o impulsiona para frente. Deste modo nunca estará a lamentar sua condição, nem a condição ou postura de outrem, porque estará conectado com as forças invisíveis de regem o universo criando possibilidades infinitas. Por que estas forças nem são boas nem são más, porque estas concepções são humanas. Elas simplesmente seguem inexoravelmente atendendo as leis imutáveis das energias dinâmicas da Natureza.

O viajante precavido que retirou o rancor de seu coração age com sabedoria ampliando seu conceito de espaço e tempo e translada seu espírito para além das causas e efeitos. Assim agindo dilui sua personalidade ao máximo e atinge sua essência. Deste modo vive na verdade e habita o verdadeiro e não é mais alvo de mentiras e calúnias. Só lhe importa e tem sentido o que é real, o perene e absoluto. Por isso sim, é alvo da felicidade e alegria infinita em contato direto com a luz que inunda o Universo.

O viajante precavido que retirou o ódio de seu coração age com coragem inaudita num mergulho mortal no incógnito, descerrando de vez com o véu enigmático da ilusão que envolve o Ser. Renasce assim das cinzas de seu próprio ego transformado em Eu Absoluto. Gota de Luz cristalina dispersa no oceano cósmico de Luz.

Além do teatro humano, além da escola da vida, magistrado, participa do Universo como peça integrante, como uma pequena engrenagem, sem a qual o Todo não funciona.

Vejam, meus queridos filhos, que modo então nosso viajante haverá de cruzar céus e terras através das existências e assim percorrer o Universo, passo a passo, conhecendo-o, por fim, como a palma de sua própria mão.

Nosso hipotético viajante, em sua infinita viagem, de algum modo, estará sempre chegando e sempre partindo. Chegando e partindo com as mãos e sacolas vazias, mas o coração e consciência repletos de benesses e certezas, de tal modo convictos em sua bagagem definitiva, seu único patrimônio, que estará sempre contigo, aonde quer que vá. Assim não tarda, nem se apressa, porque sabe que não é daqui, nem de outro lugar, mas sim de Todo lugar.

Vamos, meus queridos filhos, não percamos tempo. Removamos de vossos corações toda mácula, todo o rancor e ódio que ainda reste em Vosso Ser para que o portal de vossas almas estejam desimpedidos e abertos para acolher todo o amor que preenche o Universo.'

Já ancião, com barbas e cabelos em neve, podia-se avistar o MESTRE SUFI, caminhando com dificuldade apoiado em seu cajado, a percorrer as ruas enlameadas de sua aldeia, pregando com voz quase inaudível aos transeuntes que o ignoravam: 'Meus queridos filhinhos, removam toda mácula, todo o rancor e ódio de vossos corações para que possam adentrar ao Templo do Amor.'

Do alto partiu um raio eflúvio de tonalidade rosa. Invisível, envolveu nosso MESTRE SUFI, que sussurrou suas últimas palavras: 'Meus queridos...'

Tragado por um redemoinho multicolorido, envolto em incrível sensação, nosso querido MESTRE SUFI, depara-se, no final de sua viajem luminosa, com um imenso portal a sua frente.

Reconheceu-o, quase de pronto. Afinal, como poderia esquecê-lo. Encantado balbuciou: 'Mestra Veneranda Rowena'. Então o imenso portal abriu-se devagar e um halo de luz rosa o envolveu. O aroma divino provindo do interior do templo inundou seu pulmão, que o preenchia e, de certo modo, o nutria.

De braços abertos, aproximou-se, seguida de seus súditos, Mestra Rowena, que o abraçou com intensa ternura e carinho, saldou-o, dizendo: 'Meu querido filhinho, seja bem-vindo à sua nova casa'.

Encaminhou-o então salão adentro, aonde se encontravam centenas de pessoas, que exaltavam alegria e formosura em seus trajes, silhuetas e semblantes. Até ao ponto de questionar-se o que estaria fazendo um velho ali, no meio de tão magníficas criaturas, quais esculturas vivas. Foi quando, de propósito, Mestra Rowena fez uma parada proposital a pretexto de falar com algum conviva bem em frente a um espelho.

Observou-se, então, maravilhado para sua própria figura. Assombrou-se ao ver-se em perfeitas condições físicas, de aspecto jovial e plenamente saudável. Não mais a cabeleira branca e maltratada, mas sim cabelos pretos, lisos, cuidadosamente untados e penteados para trás. Não mais a barba longa e esbranquiçada, mas um cavanhaque muito bem tratado e assentado no seu rosto de pele morena e bem talhado. Suas vestes, não mais um trapo rasgado, sujo e fedorento, mas um traje sutilmente recortado e ornamentado como se tivesse sido costurado sobre seu corpo. Seu corpo não mais um monte de ossos arqueados, mas um corpo atlético e vigoroso, como nunca possuiu na sua melhor juventude. Recuperou, de pronto, sua autoestima, quando foi puxado novamente pela Mestra em sua incursão pelo interior do Templo. Entraram em um salão amplo, cuidadosamente adornado, repleto de convivas. Mestra Rowena então parou, os convivas silenciaram. Sorriu-lhes e disse:

-'Todo dia é dia de chegar e partir. Hoje, quem chega de regresso, é você MESTRE Sufi. Aceite nossa singela recepção em comemoração à sua chegada. Você está em Casa e estes são seus amigos que o saúdam e aguardam ansiosos o momento de abraçar-lhe'. Disse e o abraçou com tamanha ternura. Neste momento pétalas de rosas cristalizaram por sobre suas cabeças.

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